Reencontro

Um velho mendigo sobe a minha rua, com passos cansados, sem vontade de continuar, nem mais um passo, não há mais protestos a serem ditos, as lágrimas já se calaram há muito, a vergonha das roupas maltrapilhas, a barba nunca feita, o infinito cansaço que se apodera de todos os ossos do corpo, nem mais um passo, não há mais sonhos que se atrevem a entrar, apenas o desejo que a morte o liberte, mais cedo do que mais tarde, os carros a passarem indiferentes, a gente que o observa com desprezo antes de o ignorar, a criança que é castigada porque se atreveu a fixar o olhar nele, coitada da criança, ainda apanha uma doença
– mãe, onde estás, mãe?
uma voz irrompe de todos os lados, não veio de nenhuma das pessoas à volta, o velho assusta-se a tentar descobrir de onde veio aquele som tão estranho, tão familiar, tão antigo, talvez fosse a sua própria voz num tempo há muito perdido, a procura aflitiva por alguém que nunca existiu, de certeza que nunca existiu
– mãe, onde estás, mãe?
outra vez a mesma voz, deve ser de um anjo, aquele que finalmente o vem buscar, mas em frente aparece uma figura esquecida há muito, a sua mãe quando ele tinha meia-dúzia de anos, não envelheceu nem um dia, continua bela como sempre foi
– filho, meu querido filho
o reencontro termina quando ele a tenta abraçar, afinal não havia ninguém, apenas o silêncio e a escuridão de sempre, ela desapareceu sem deixar rasto, talvez nem sequer tenha sido ela, talvez ele esteja demasiado sóbrio, por isso vai buscar à tasca um pacote de vinho de quarenta e cinco cêntimos, o melhor remédio para tudo, até para se esquecer do que acabou de acontecer

Naquela praia

Caminho pela praia, o cheiro do mar entra em mim e não sai, os meus pés descalços gravam pegadas firmes na areia junto à água fria, olho ao longe mas só vejo a linha do horizonte, onde vivem os monstros marinhos, as sereias e todos os seres aquáticos cujo maior feito é terem-nos convencido que afinal não existem, no entanto estão lá, a viver aventuras extraordinárias que só os livros antigos conhecem,
as gaivotas a voarem indiferentes, fazem o barulho típico a que a gente que vive perto do mar está habituada, como eu, que caminho pela praia fora sem saber quem são as dunas e quem sou eu, a água com sabor a sal ainda não molhou o lugar onde me costumo deitar e me derreter na areia até formarmos um único corpo, onde as gaivotas se juntam para de seguida darem vôos rasantes à procura de cardumes de peixes, voltando depois novamente para a areia, repetindo incessantemente está dança,
o sol de fim de tarde prepara-se para mais um maravilhoso espetáculo, que é quando se esconde no término do mar e irradia cores sublimes que mais ninguém quer olhar, por isso é quase um segredo só nosso, meu é do mar, que me conta ao ouvido histórias de outros tempos, quando frágeis barcos partiam em busca de um desconhecido que não se queria dar a conhecer,
a noite cai rapidamente e eu fico com frio, talvez amanhã tudo se repita outra vez, mas por hoje vou embora com o cheiro do mar em mim e eu para sempre naquela praia, muito para lá da minha morte

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